Cinema em 2012, um Top XX

Este foi um ano especial em vários aspectos, sendo que o principal, para mim, terá sido o facto de por ter estado fora do país e num sítio onde o acesso local à cultura ainda é muito difícil, me ter habituado a ver cinema no PC em vez de apenas no escuro da grande sala, algo que me é essencial desde que me conheço e que em termos de artes apenas perde nas minhas preferências para a música, mas essa não é vício, é, como alguém que muito prezo diz, “ar”, essencial à sobrevivência no dia-a-dia.

Mas, passemos então à lista deste 2012 cinematográfico. Ao contrário da música, aqui há alguma ordenação das escolhas, pelo menos das principais. Os filmes não são forçosamente de 2012, alguns são de 2011 mas só por cá estrearam este ano (os que estrearam…).

  1. Amour de Michael Haneke – Um dia virei aqui falar sobre este filme, talvez quando o revir, o que pretendo fazer a curto prazo. Apenas posso dizer que sim, o Amor é aquilo que ali está.
  2. Poulet aux Prunes de  Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud – Há um cinema iraniano? Há, definitivamente, e por ele têm passado alguns dos melhores filmes de que me lembro nos últimos tempos, seja o primeiro de Satrapi, seja essa exemplar demonstração de que somos todos iguais, temos todos os mesmos problemas e o mesmo anseio pela felicidade. É disso também que trata este Poulet aux prunes, do Amor, da Felicidade, da decisão de desistir de viver quando se acha que perdemos a hipótese de a eles chegar ou voltar. Ah, e tem Mathieu Amalric que ameaça tornar-se o meu actor francês de eleição.
  3. Seeking a friend for the end of the world de Lorene Scafaria – Confesso, não ía à procura de nada que não fossem uns momentos um pouco mais divertidos naquela tarde em Lisboa. Ganhei muito mais que isso, ganhei um filme delicado, divertido q.b., com um Steve Carell cada vez mais contido e cada vez mais actor em detrimento de ser apenas um cómico, com uma Keira Knightley que cresce de filme para filme (não, não vi o Anna Karenina) e que me ganha a partir do momento em que se assume como viciada em música (uma personagem que foge do inevitável com os seus discos preferidos em vinil debaixo do braço e que entre esses tem 69 Love Songs dos Magnetic Fields ou Scott Walker ganha facilmente o meu apreço incondicional).
  4. Moonrise Kingdom de Wes Anderson – Um elenco de primeira e cenários de sonho, combinados com um argumento delicioso fazem deste um filme memorável e que vai apetecer rever quando quisermos ficar bem-dispostos.
  5. Argo de Ben Affleck – A prova de que a realidade é muitas vezes mais estranha do que a ficção. E que Ben Affleck é um bom realizador (argumentista já se sabia desde o Good Will Hunting que co-escreveu com o Matt Damon) e está cada vez melhor actor.
  6. Looper de Rian Johnson – Ficção científica de primeira apanha e o maior anúncio ao Blunderbuss do Jack White que eu já vi… 🙂
  7. Cloud Atlas de Lana e Andy Wachowski e Tom Tykwer – Uma forma megalómana de explorar o “isto está tudo ligado” que tantas vezes se vê em cinema (p.e. em 360 de Fernando Meirelles que muito prometia e acabou por sair fraquinho…) e que neste filme se revela surpreendente, intrigante e  cativante, até pela decisão arrojada de fazer com que os actores principais (pelo menos uns 15…) desempenhem entre 3 e 6 personagens diferentes, que vão do envelhecimento simples ao hilariante desconstruir de uma imagem, casos de Hugh Grant como canibal ou Hugo Weaving como enfermeira tirana. Daqueles que pela sua grandiosidade fotográfica merece ser visto em cinema e que, felizmente, não tiveram a infeliz ideia de filmar em 3D.
  8. Vous n’avez encore rien vu de Alain Resnais – Recriação do mito de Orfeu e Eurídice feita de uma forma deliciosa para nos mostrar a beleza da arte de representar e da forma diversa como vários actores pegam num mesmo texto e o transformam em seu dando-lhe um cunho pessoal inextricável da obra que interpretam. E o prazer de ver, num mesmo filme, Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azemá, Anny Duperey, Gérard Lartigau, Michel Piccoli, Lambert Wilson, Anne Consigny fazendo de si próprios e das suas personagens, é imenso.
  9. Shame de Steve McQueen – Depois de Hunger, Steve McQueen volta a incomodar e retrata um pouco do mundo de adultos em que vivemos, muitas vezes sós e carregados de segredos. Michael Fassbender veio para ficar.
  10. Ruby Sparks de Jonathan Dayton – Talvez o argumento mais original do ano e mais uma Kazan, Zoe, a brilhar em Hollywood a escrever e a actuar de forma deliciosa. Uma forma diferente de ver o amor e de abordar o conceito “Stingiano” de If you love somebody, set him free, her neste caso…
  11. Skyfall de Sam Mendes – Há muito que não me recordava de um 007 que merecesse figurar numa lista destas. Bond reencarnou depois de ter andado disfarçado por Moores, Daltons e quejandos, encontrando em Daniel Craig a pele e o corpo que perdera ao deixar Sean Connery. As sequências vertiginosas estão lá, as inverosímeis também (mas é Bond e tudo se lhe perdoa), há novos actores para velhos papéis, há um vilão Bardem delicioso e que pela 1ª vez, que me lembre, nos faz duvidar em que campo joga Bond, há uma morte horrorosa (não humana é certo, mas não se faz aquilo a um DB5), só não há Bond-girl verdadeiramente digna desse nome. Sou levado a concluir que nos recordamos tanto das outras Bond-girls porque os filmes em si não eram assim tão memoráveis…
  12. Carnage de Roman Polanski – Escrito para teatro e adaptado ao cinema por Yasmina Reza, é um filme de actores com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly naquilo que apenas consigo descrever como um Shotgun Stories urbano.
  13. Hugo de Martin Scorcese – Scorcese ama o cinema e o cinema retribui. Um filme fantástico à volta da magia do cinema de George Méliès.
  14. Killing them softly de Andrew Dominik – Negro qb, irónico qb, a primeira cena é digna de uma abertura de episódio de Breaking Bad.
  15. Lawless de John Hillcoat – Há um nome que sai deste filme, o de Tom Hardy, como confirmação de que temos actor e uma promessa de que ainda há-de sair dali coisa de jeito quando crescer, Shia LaBeouf. Há um argumento adaptado por Nick Cave e uma banda sonora de 1ª que sai direitinha das mãos e das escolhas do Sr. Cave e de Warren Ellis.
  16. Le Havre de Aki Kaurismäki – A Europa e a imigração. Delicado, duro, bom.
  17. The Best Exotic Marygold Hotel de John Madden – To cut a long story short: Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy, Maggie Smith, Ronald Pickup e Celia Imrie. Um filme de actores e uma forma diferente de olhar a crise, o amor e o envelhecimento.
  18. Extremely Loud & Incredibly Close de Stephen Daldry – ver mais aqui.
  19. Liberal Arts de Josh Radnor – Depois de ter descoberto via a minha dealer do costume o delicioso Happythankyoumoreplease sou levado a concluir que o Ted de HIMYM é construído à imagem de Josh Radnor, que se revela um argumentista divertido sem necessidade de recorrer à boçalidade, um  realizador sensível e um actor que em momento algum parece precisar de se esforçar no que faz.
  20. Jeff, who lives at home de Jay e Mark Duplass – Desconcertante, mais uma vez há humor sem haver boçalidade. Jason Segel de HIMYM e Ed Helms em grande. Ah, e Dame (não é mas devia ser) Susan Sarandon.

Há mais, os que vi mas não cabiam aqui e os que não vi, por falta de tempo ou por ainda não terem estreado (desculpa de mau pirata, eu sei…)

Ponto alto do ano: It’s a Wonderful Life de Frank Capra na Cinemateca Portuguesa, naquela que foi a estreia por aquelas bandas (reticente a princípio mas vencedora no final) do meu filho mais novo.

A ordem hoje foi esta, amanhã seria outra diferente em que só os 3 primeiros são imutáveis.

Desilusões do ano: The Hobbit – An unexpected journey, The Dark Knight Rises

De 2012 a ver logo que consiga: The Master, Django Unchained, Zero Dark Thirty, Lincoln, The Impossible, Savages, Sinister, End of Watch, On the Road, Promised Land e Hitchcock.

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One thought on “Cinema em 2012, um Top XX

  1. Opinião de cinéfila pouco expert… Do que vi (cerca de metade) estou em perfeito acordo. De resto, parece-me haver um filão de boas sugestões de coisas que deixei passar por falta de tempo ou oportunidade (ah isto de viver no campo!) ou porque não sei mesmo piratear.
    Do que aqui não consta, sugiro Oslo, 31 de Agosto http://www.imdb.com/title/tt1736633/ (duro, muito duro!) e También la Lluvia http://www.imdb.com/title/tt1422032/ – como a atrocidade, de há 500 anos ou mesmo ao nosso lado, nos pode tocar, mudando-nos eventualmente.

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